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"Cardápio? “Hoje estou meio preguiçoso, tem dobradinha e churrasquinho. Quando me dá vontade, faço sardinha.” Serviço? “Se não vou com a cara da pessoa, se vejo que vai me dar problema, falo que a cerveja está quente, que já vou fechar o bar.” Sobre as mais de mil garrafas de cachaça na parede? “Pus aquele papel escrito R$ 50 para pararem de me perguntar toda hora.”
Não há garçom, não há música, não há placa na porta, não há cardápio. A TV pequena e velha está desligada. Dois fregueses desacompanhados ocupam metade das quatro mesas de plástico, entre plantas e engradados. Eis o Bar do Delgado.
Aberto e comandado pelo português Antônio Delgado de Andrade, de 76 anos, que nasceu em Póvoa do Concelho e foi criado em Belo Horizonte, esse bar no Bairro Pompeia é apenas um entre os muitos da cidade que atravessam as décadas intocados pelas tendências, aparentemente à margem do tempo.
Ali não tem marketing, móveis de demolição, cerveja artesanal, drinque no pote, harmonização, muito menos chef. No império da dobradinha, da carne cozida e do pé de porco, resistir à tendência de sofisticação que ganhou impulso com a moda da alta gastronomia não é uma missão; é que não há como ser diferente. Assim, mantém-se viva parte representativa da identidade cultural de BH.
Há um quê de folclore em tudo isso e talvez os donos desses bares não se deem conta. Não é só pelo tira-gosto ou pelo ambiente. Uma atmosfera peculiar se forma nesses lugares, na qual influi decisivamente o astral da clientela. Não raro são pessoas que chegam sozinhas, mas que nem por isso sentem-se solitárias: as mesas “conversam” umas com as outras e com o proprietário da casa, sempre presente.
Há certo clima de cumplicidade no ar. Quem quer conversa, pode colocá-la em dia facilmente por ali; quem quer meditar quieto, não se sentirá um peixe fora d’água. Todos sentem-se em casa.
“Só vem gente boa aqui e são sempre as mesmas pessoas”, conta Delgado, ao lado da velha fatiadora que hoje só usa para cortar os frios que leva para casa. Lembrança dos tempos em que o imóvel, erguido por ele em 1964, também funcionava como mercearia. “Aqui vendia pão, leite, verdura. Com o comércio que veio para o bairro, isso caiu muito”, diz. Hoje, fica por conta de fazer as compras, preparar os petiscos e atender quem chega – sem ajuda da família, nem de funcionários. “Não é por dinheiro, eu é que não gosto de funcionário. Nunca tive”, explica.
Não há qualquer amargura nessa fala. Ao contrário, deixa transparecer certeza tranquila de que tocar o bar é um ofício que só ele pode desempenhar e que a vida dos três filhos é outra, completamente diferente da dele. De Portugal, não sente saudade, pois percebe BH como sua terra.
De fato, o sotaque lusitano é pouco e os laços de amizade com gente daqui são fortes, como atestam as cabeças de peixe e quadros com fotografias da turma de pescaria. Com uma caneta atrás da orelha e o jeito manso de ver a vida passar no cruzamento das ruas Casa Branca e Mário Martins, ele bem que poderia ser mineiro." - https://www.uai.com.br/app/noticia/gastronomia/2015/02/10/noticias-gastronomia,164395/bares-de-bh-resistem-a-tendencia-de-sofisticacao-culinaria.shtml
Baixa Gastronomia por Nenel: https://www.instagram.com/baixagastronomia/